Pelé se posiciona sobre o racismo no futebol atual

No último dia 10, Pelé, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, concedeu uma entrevista exclusiva ao UOL Esporte, na qual se posicionou sobre diversos temas, dentre eles o racismo.

Confira trechos da entrevista de Pelé:

“O que mudou na sua agenda após o problema de saúde?

Na realidade, na agenda não mudou nada. Acabo de chegar da África, da final da Copa da África. Parei uns 30 dias quando tive a infecção hospitalar. Graças a Deus, me recuperei e estou aí. Continuo cumprindo agenda. Vamos ter agora esta semana do Carnaval, que vou descansar. Logo após, a gente já começa a atender uns compromissos que, por causa da internação, eu tive que cancelar. Às vezes, eu brinco: estou pronto para outra. Mas não quero outra não. [risos]

Temos tido casos de racismo no futebol. Como você vê essa repercussão e isso continuar ocorrendo?

Na minha maneira de entender, eu acho que deram muita ênfase a essa coisa do ser humano. Tem dificuldade e racismo contra o japonês, contra o gordo, contra o negro. No tempo em que eu era jogador profissional, era a mesma coisa. Xingavam, mas nunca houve essa preocupação, essa atenção que foi dada para os que gostam de segregar. Eles não são torcedores normais, são doentes que vão para os estádios e ficam ofendendo. Se todos fizessem como o Daniel [Alves], quando jogaram uma banana quando ele foi bater o escanteio, descascassem a banana, comessem e não fizessem nada, nunca mais ninguém ia fazer nada. O grande problema é que dão atenção a esses malucos que vão para o jogo, que não são torcedores, são bandidos.

Você vê como um certo exagero toda essa repercussão?

Claro, sem dúvida nenhuma. Infelizmente, nós temos o racismo no Brasil com o japonês, o negro, o gordo. Se eu fosse brigar todas as vezes que me chamaram de negro nos Estados Unidos, na Europa, na América Latina e no Brasil, eu ainda estaria processando todo mundo.

Como o Brasil pode superar o 7 x 1 contra a Alemanha?

É uma coisa difícil de explicar, mas eu acho que é um momento de reflexão e de organização. O Brasil, individualmente, tem os grandes jogadores de todo o mundo. Vamos ver se a gente organiza agora a administração no Brasil.

Como você vê a torcida única em grandes clássicos do futebol?

É triste. O único esporte que você tinha, por suposto, juntar todos os povos. No Brasil, estão fazendo a separação. É triste você saber que tem que tomar essa providência para poder continuar um campeonato no Brasil. Acho que chegou o momento de o governo ver isso, porque esse é um problema social e não esportivo.

Quem são os 10 melhores jogadores que atuaram com você?

Caramba. É complicado dizer 10 com tantos bons jogadores. É injusto citar esse número em 30 anos de carreira. Tivemos jogadores excelentes. Desde o início da minha carreira, Didi, Garrincha, Zito (no Santos), Coutinho (nos cinco grandes anos de Pelé), Tostão e Rivelino (na seleção de 70). Tem outros jogadores que não jogaram comigo mas foram excelentes jogadores, como o Zico. Poxa, tivemos o Falcão… É impossível citar 10, apesar de 10 ser meu número de sorte.

Qual a melhor seleção brasileira de todos os tempos?

Hoje, nós temos como registro a seleção de 70, considerada a melhor seleção de todos os tempos.

Tem alguma coisa que você ainda não fez e gostaria de fazer?

Sempre estamos almejando alguma coisa. A minha angústia ainda é com o futebol brasileiro, com a administração do futebol brasileiro, com a falta de critério dos nossos governantes. Nós ainda temos muitas dificuldades no Brasil. A atenção às crianças. Infelizmente, hoje nós temos muito mais problemas do que quando eu fiz o milésimo gol. No milésimo gol, eram os trombadinhas, era um ou outro roubo. Agora, infelizmente, é assassinato, drogas, a criminalidade cresceu muito. O que eu gostaria de ver era uma mudança nisso. Esse ainda é o meu desejo.”